Fatos Principais
- Maria Duran foi transferida de Lisboa para o Convento de Nossa Senhora do Paraíso em Évora, onde seu comportamento chamou a atenção da Inquisició.
- No dia 12 de setembro de 1742, Duran compareceu perante o tribunal no Palácio da Inquisició, acompanhada por três inquisidores e quatro delegados civis.
- O tribunal estava profundamente dividido, com alguns membros encontrando evidências insuficientes para condenar Duran, enquanto outros estavam convencidos de sua culpa.
- Os inquisidores teorizaram que a possessão demoníaca poderia alterar temporariamente a anatomia de uma mulher para incluir genitália masculina.
- O Convento de Nossa Senhora do Paraíso, onde os eventos começaram, foi demolido.
Um Enigma Teológico
No meio do século XVIII, a Inquisició enfrentou um caso que desafiava uma categorização simples. Maria Duran, uma figura já conhecida pelas autoridades em Lisboa, foi transferida para Évora para enfrentar um novo capítulo de escrutínio. Sua presença no convento de dominicas de Nossa Senhora do Paraíso—hoje demolido—despertou preocupação imediata entre as freiras.
As freiras do convento eram conhecidas por fofocar, e o comportamento de Duran foi descrito como "temerário". Quando esses relatórios chegaram aos ouvidos da igreja, o Santo Ofício interveio. O que começou como uma questão disciplinar evoluiu rapidamente para uma batalha legal e teológica complexa que desafiaria as definições rígidas de gênero e biologia no século XVIII.
A Transferência para Évora
A jornada de Maria Duran de Lisboa para Évora marcou uma escalada significativa em seus problemas legais. Enquanto em Lisboa, ela já havia chamado atenção, mas foi no convento de Nossa Senhora do Paraíso que a situação atingiu um ponto de ebulição. O convento, um lugar de reclusão estrita, tornou-se o cenário de eventos que as freiras se sentiram compelidas a relatar.
O papo das freiras era implacável. Elas observaram Duran envolvida em atos sexuais considerados escandalosos e imprudentes. Em uma sociedade governada pelos códigos morais estritos da Santa Igreja, tal comportamento não podia ser ignorado. As paredes do convento, destinadas a proteger o mundo do sagrado, em vez disso, tornaram-se um condutor de informações que levaram diretamente ao tribunal da Inquisició.
- Transferida de Lisboa para Évora
- Residiu no Convento de Nossa Senhora do Paraíso
- Comportamento considerado "temerário" pelas freiras do convento
- Relatórios levaram à intervenção da Inquisició
"A Inquisició, por padrão, queimava judeus e, excessivamente, qualquer um que observasse comportamento estranho às regulamentações da Santa Igreja."
— Contexto Histórico
O Tribunal de 1742
Os procedimentos formais começaram em 12 de setembro de 1742. O local foi o Palácio da Inquisició em Évora, uma estrutura formidável que infundia medo nos acusados. Maria Duran ficou perante o tribunal, enfrentando não apenas os três inquisidores designados para seu caso, mas também uma adição incomum: quatro delegados civis.
A presença de oficiais civis ao lado de autoridades religiosas destacou a gravidade do caso. Não era apenas uma questão de heresia ou disciplina religiosa; tocava a ordem civil e as leis naturais do reino. O tribunal era uma fusão de igreja e estado, unidos em sua missão de erradicar desvios das normas estabelecidas.
"A Inquisició, por padrão, queimava judeus e, excessivamente, qualquer um que observasse comportamento estranho às regulamentações da Santa Igreja."
A atmosfera no palácio estava tensa. O acusado estava isolado, cercado por figuras de autoridade absoluta. Os procedimentos foram registrados meticulosamente, mas o resultado permaneceu incerto enquanto o conselho deliberava sobre a natureza única da aparência física e das ações alegadas de Duran.
Um Conselho Dividido
À medida que o julgamento progrediu, uma profunda divisão emergiu entre os juízes. As evidências apresentadas sobre a anatomia e o comportamento de Maria Duran eram conflitantes. Alguns membros do tribunal argumentaram que simplesmente não havia evidências suficientes para provar sua culpa. Eles viam as acusações como especulativas ou talvez como resultado de um mal-entendido.
Por outro lado, outra facção do conselho estava convencida de sua culpabilidade. Eles acreditavam que os relatórios do convento e as evidências físicas apresentadas justificavam uma condenação. Essa divisão criou um impasse, forçando os inquisidores a olhar além dos precedentes legais padrão e a mergulhar na teologia e na teoria médica para justificar sua decisão.
- Uma facção acreditava que as evidências eram insuficientes
- Outra facção estava convencida de sua culpa
- O debate centrava-se na anatomia física vs. culpa espiritual
- Precedentes legais padrão eram insuficientes para o caso
A Teoria da Possessão Demoníaca
Incapazes de resolver a contradição através da jurisprudência padrão, os inquisidores recorreram à especulação teológica. Eles teorizaram que se uma mulher parecesse possuir genitália masculina, poderia ser obra do diabo. A lógica seguia que a possessão demoníaca poderia alterar temporariamente a forma física de uma pessoa para enganar os fiéis.
Essa explicação permitiu ao conselho reconciliar as evidências físicas com sua visão de mundo religiosa. Em vez de aceitar uma realidade biológica que desafiava sua compreensão da criação, atribuíram a anomalia a uma interferência sobrenatural. Foi uma solução conveniente, embora aterrorizante, que preservou a santidade dos ensinamentos da igreja enquanto explicava o inexplicável.
"Os inquisidores consideraram que se uma mulher fosse possuída pelo diabo, ela poderia bem ter um pênis temporário."
A teoria da manipulação demoníaca serviu como a ponte entre os depoimentos conflitantes e a realidade física observada pelas freiras. Transformou uma curiosidade médica em uma crise espiritual, garantindo que o caso permanecesse sob a jurisdição da Inquisició.
Legado do Julgamento
O julgamento de Maria Duran permanece um exemplo assombroso da colisão entre dogma rígido e complexidade humana. Embora o veredito final não seja detalhado nos registros sobreviventes, os próprios procedimentos revelam os mecanismos de poder no Évora do século XVIII. A disposição da Inquisició em invocar possessão demoníaca destaca os limites de sua compreensão e os extremos a que iriam para manter o controle.
Hojem, o convento de dominicas de Nossa Senhora do Paraíso desapareceu, demolido para dar lugar à marcha do tempo. No entanto, a história de Maria Duran persiste. Ela serve como um lembrete dos indivíduos que ficaram presos nas engrenagens da história, julgados não por seus pares, mas por um tribunal que via o corpo humano como um campo de batalha para forças divinas e demoníacas.
"Os inquisidores consideraram que se uma mulher fosse possuída pelo diabo, ela poderia bem ter um pênis temporário."
— Teoria do Tribunal
Perguntas Frequentes
Quem foi Maria Duran?
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